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Carlos Castaneda, o mago moderno
da sagrada linhagem
tolteca
Por Christiane Brito
Raízes verde-amarelas
Carlos Castaneda nasceu no Brasil, em 1935, numa
fazenda no Estado de São Paulo. Seu pai era filho do
dono, sua mãe, provavelmente uma empregada da casa.
Dessa desafinada dupla, nasceu uma criança com
escassa energia sexual. Como explica o próprio Castaneda: “todo ato sexual é uma doação do brilho
da consciência e uma união sexual aborrecida gera
uma prole igualmente aborrecida”. Principalmente,
Castaneda foi filho e herdeiro do desamor, tendo
sido criado por uma tia e o avô. Completou seus
estudos na Argentina e com ajuda do pai foi fazer
antropologia na UCLA, em Los Angeles, nos EUA.
Sabe-se que teve um filho, o qual, como o pai, não
criou, embora adorasse crianças. E isso é o pouco
que se sabe de sua vida antes de encontrar seu
mestre espiritual, don Juan, no México, porque a
partir de 1970, ele se esforçou por apagar a
história pessoal, conforme ensinamentos sagrados dos
toltecas.
O mestre encontra seu principal discípulo
Um amigo de Castaneda indicou don Juan como uma boa
fonte para suas pesquisas sobre as ervas medicinais
usadas pelos índios mexicanos, embora fosse um
“velho intratável e que vivia bêbado”. Castaneda,
que estava no México colhendo material para uma tese
de doutorado, conheceu don Juan num ponto de ônibus.
O primeiro tentou impressionar o segundo afirmando
que já possuía muito conhecimento sobre o assunto, o
que não era verdade. Don Juan captou a mentira e
refletiu-a com o olhar, e, com esse olhar, capturou
o coração do discípulo. Ignorando que havia sido
escolhido, Catanheda estudou durante seis meses
sobre o assunto e, passado esse tempo, foi procurar
don Juan de novo. O misterioso homem, nascido por
volta de 1875, acolheu-o totalmente. E um dos seus
primeiros ensinamentos foi sobre a necessidade de
apagar a vida pessoal.
Primeira lição: apagar a vida pessoal
“Uma estranha realidade”, de 1971, foi o segundo
livro de Castaneda, e tratava ainda das ervas
alucinógenas. Só em “Viagem a Ixtlan”, de 1973, o
autor resgata sua iniciação na feitiçaria, em 1960,
e enuncia alguns dos principais pressupostos da
doutrina. O primeiro é apagar a história pessoal,
para desapegar-se de obrigações e envolver-se em
mistério. Cada capítulo desse terceiro livro tem o
efeito de uma martelada, daquelas que despertam o
inconsciente. A obra mostra que as experiências
místicas com alucinógenos não são a parte principal
do pensamento do autor.
Segunda lição: parar o mundo
O objetivo de don Juan desde o início foi fazer o
aprendiz parar o mundo. O mundo se perpetua do modo
como é devido às interpretações que fazemos dele
baseadas em crenças dos mais velhos. A partir de um
inventário de memórias e de ítens, e com um diálogo
interno progressivamente, ao longo dos anos, mais
complexo, nossa percepção se torna fixa e passamos a
enxergar o mundo da mesma forma todos os dias. Parar
o mundo é paralisar o modo como o ego conduz
subjetivamente nossa consciência. O ego de Castaneda,
constantemente atacado por don Juan, se apequenou
diante da eternidade da vida. A grande lição a tirar
daí é que torna-se preciso perder a importância
própria para apreciar realmente o mundo ao redor. A
vaidade faz com que nossos problemas pareçam a coisa
mais importante da vida e faz com que tratemos
mesquinhamente a realidade. Um bom exercício para se
perder a importância própria é conversar com as
plantas, ensina don Juan.
Morte conselheira
Quando comparamos as ocupações e preocupações
cotidianas com a morte, tudo perde a importância.
Por isso a morte deve ser usada como conselheira.
Devemos perguntar-lhe, ensina don Juan, se já chegou
a hora do seu toque. Ela está sempre à nossa
esquerda, a um braço de distância. No livro “O Fogo
Interior”, Castaneda explica melhor o que é a morte
e como ela consome a vida humana.
A rotina enfraquece
No segundo ano de sua iniciação, Castaneda aprendeu
a ser caçador, um ser humilde, que fala pouco e
apenas o necessário, e que não tem rotina. Pois é a
repetição do cotidiano que faz o mundo parecer fixo
e maçante. A rotina enfraquece e molda os hábitos.
Deve-se romper com ela, como fez Castaneda. Ele
fazia coisas como escrever à noite e comer apenas
quando sentia fome, portanto, sem obedecer a
horários pré-estabelecidos.
Ver além das aparências
Um feiticeiro sabe ler o mundo, e o Espírito dá
sinais o tempo inteiro para quem sabe observar. Por
exemplo, corvos não são simples corvos, mas podem
muito bem dar indicações importantes para as
pessoas, como apontar o sentido em que devem seguir.
Foi assim, olhando os sinais do Espírito, que don
Juan descobriu que Castaneda era um discípulo
escolhido.
O caminho do guerreiro
Na tradição tolteca, o bruxo é também um guerreiro.
Ele deve assumir a responsabilidade por seus atos,
cumprindo sua missão de forma impecável sem se
preocupar com as consequências. Trilhar o caminho do
guerreiro é seguir um modo ético de se servir o
Espírito: o guerreiro é inacessível, toca o mundo
com cuidado, ignorando os caprichos humanos, e caça
o poder.
Cessar o diálogo interior
Para evoluir no aprendizado tolteca torna-se
imprescidível parar o diálogo interior, que mantém a
percepção fixa. É preciso parar seu fluxo para que
se possa apenas sentir, rompendo-se com o esquema de
direção e norteamento que a razão nos dá. A partir
disso, pode-se entrar em transe e aprofundar
vivências espirituais.
A morte anunciada
Em junho de 1998, foi divulgada, muito
discretamente, a notícia da morte de Carlos
Castaneda, ocorrida supostamente dois meses antes,
em função de um câncer. Seu falecimento, assim,
envolve-se na mesma aura de mistério que marcou sua
vida. Da sua iniciação na magia tolteca, ficou uma
obra vigorosa, da qual beberam, e bebem, muitos dos
atuais autores esotéricos, e que continua
arrebatando muitos jovens interessados em desvendar
os segredos da consciência. Seus livros refletem o
encantamento do autor com a descoberta de que o seu
objeto de estudo, o mundo indígena mexicano, era
mais vasto e profundo que sua formação de
antropólogo.
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